Philos 2018: o acampamento para filhos de missionários


 

Philhos 2018: fui e gostei!

 

por Timóteo Neves - filho de missionários da APMT no Oriente Médio

 

Não houve uma razão muito lógica pra eu fazer o que fiz. Os custos do evento estavam até em conta, mas somando com as passagens, traslados, e dinheiro de emergência a viagem ficava um pouco cara. Foi um baita de um escorpião que tive que extrair do bolso do meu pai. Pra quê? Pra investir em uma semana, das poucas que eu estaria no Brasil, com gente que eu não conhecia.

Mas Deus colocou uma minhoquinha dentro da minha cabeça que se remexia e dizia:                

            – “Vá!” Ela remexeu tanto que passei uma noite em claro tentando silencia-la.

            – “Eu vou sim. Tá bom. Quieta. Já entendi. Vou lá fazer minha inscrição agora. Quer dizer, agora não, mais tarde, afinal são 5 da manhã...” E assim fui.

Cheguei ao local e percebi que tinha traços de um acampamento qualquer – com direito a porteira, estrada de chão e matagal nas redondezas – daí comecei a procurar sinais do porquê de eu estar lá. Ou Deus falaria comigo através de um dos pinheiros, ou os renomados filhos de missionários exibiriam suas virtudes como se fossem cidadãos kryptônicos na Terra. Só que nem um nem outro aconteceu.

É certo que quando houve devocionais, podíamos olhar para os pinheiros e refletirmos na grandeza de Deus e na beleza de sua criação. Também é certo que qualquer cidadão se sentiria meio alienado ao entrar no refeitório e escutar o coquetel de línguas ali presente. Mas isso pra mim ainda não justificava a minhoca de alguns dias antes.

Então os primeiros dias de acampamento foram pra mim um pouco mecânicos... Café. Louvor. Devocional. Brincadeira. Almoço. Reflexão. Brincadeira de novo. Louvor de novo...

Pouco a pouco fui tentando formar amigos, mas logo que começava com “e aí, tudo bem?” no fundo da minha cabeça eu me perguntava se valeria a pena conhecer alguém só por uma semana. Creio que estava quase na metade do acampamento quando imaginei a seguinte conversa com meus pais:

            – E aí filho, tá gostando do acampamento?

            – Ué, tô.

            – Já fez muitos amigos?

            – Assim... tipo... eles já se conheciam de antes né? Acho que com mais tempo...

            – Hum... tá valendo a pena?

E mesmo na conversa imaginária eu temia em dizer o “não” que subia do coração, mas ficava trancado na garganta.

Enfim, o “não” ficou melhor trancado mesmo. No outro dia ele voltou para o lugar de onde ele tinha vindo e desapareceu da minha cabeça junto com aquela sensação. Se valeu a pena? Valeu sim! Demais!

A beleza da experiência não foi imediata. Foi como se eu estivesse coletando pedras em um lugar meio escuro e só percebesse que eram pedras preciosas depois que já havia coletado várias. Cada momento era um tesouro! Então comecei a notar que alguns deles reluziam cada vez mais, como um rubi, uma esmeralda, ou algo assim.

A “Roda Amiga”, por exemplo, apesar do nome de pneu de caminhão, foi um negócio fantástico. Eram grupos divididos por sexo e idade que compartilhavam sobre o momento da devocional juntamente com um líder. Não havia nada de especial se eu comparasse uma “Roda Amiga” com outra (alguns acampantes podem dizer que a deles era a melhor. Não acredite!), mas esses momentos foram marcantes em um nível bem particular. Com esses amigos eu pude compartilhar coisas do campo missionário que pesavam fundo no meu coração. Coisas que quando você fala pra pessoas que não estejam no mesmo contexto, elas te olham com aquela cara de “Estudante de Humanas olhando para uma página de Cálculo”. E ainda balançam a cabeça e dizem por educação: – Aham, sei.

Na “Roda Amiga” bastava um olhar como resposta. Um simples olhar que dizia:

            – Já calcei seus sapatos. Eu te entendo irmão. Realmente isso não é fácil.

E em meio aos sapos que eram vomitados depois de já terem sido engolidos e digeridos por um bom tempo, vinham algumas palavras de meditação e consolo. Eram palavras do líder ou de algum outro membro da “Roda Amiga”, pré-meditadas ou espontâneas, completas ou picadas, mas que sempre buscavam estar pautadas na Bíblia. Eram palavras espelhadas pela palavra de Deus.  Essa era a resposta ao remexo da minhoca. E olha que foi só uma das pedras preciosas!

Não vou falar do frango grelhado no tijolo, feito pelo cozinheiro americano, nem do jogo chamado “Caçador de Três Passos”, que teve muita bolada na cara, nem do grupo no ônibus cantando e batucando músicas gospel a viagem inteira. Vou falar só de mais outra pedra e encerrar por aí mesmo.

Houve outra roda. Uma na qual cheguei, entrei, e fiz parte imediatamente – a “Roda da Fogueira”. Desde a chegada já partilhei de um senso unânime de timidez e gratidão por estar perto daquele fogo quentinho naquela noite gelada. Havia um silêncio geral que era interrompido só pelos estalidos das brasas lambendo madeira. O violão soou por um tempo, mas depois deu espaço às palavras que viriam de um falante indefinido. Ainda bem que os marshmellows se atrasaram, senão poucos abririam a boca pra falar e só iriam mesmo empanturrar-se com eles.

Mas quando falaram, falaram. Os filhos de missionários se levantavam, balbuciavam, e derramavam histórias que penetraram meu coração como dardos. Bem no alvo! Era um sentimento que eu já tivera várias vezes, mas não podia compartilhar. Então agora ele estava ali, vindo da boca de uma silhueta avermelhada do outro lado do fogo e da fumaça. Não demorou muito pros meus olhos lacrimejarem.

A história de alguns eram bem únicas, mas mesmo assim senti empatia com as dores, com as lutas e tudo o mais. E não fui o único. Acho que posso dizer que havia em volta daquela fogueira um espírito unânime. Isso porque quando alguém terminava a história e eu me deixava correr até o indivíduo pra dar aquele abracinho de gigante, não era só eu que ia, era quase todo mundo.

Eu pude notar, com um suspiro, que aquela não era só uma roda de filhos de missionários; aquela era uma roda de servos de Deus.

Esta é mais outra pedra preciosa que partilho como prometi, a última que vou mencionar. Agora se me perguntarem, ‘Philhos 2018’ valeu a pena? Não vou nem responder, pois você já sabe a resposta.

 

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