Onde Cristo não fora anunciado


 ...e onde Cristo já fora anunciado

 

por Rev. Carlos del Pino | revdelpino@gmail.com

 

“A bênção do evangelho deve ser anunciada a ‘todo o mundo’, pois foi ‘todo o mundo’ que pecou e se distanciou culposamente de Deus”.

O título pode nos assustar um pouco, visto que fomos bem condicionados com a ideia de que o evangelho deve ser fundamental e prioritariamente pregado aos povos que nunca ouviram de Cristo. Considera-se hoje, de forma generalizada, que o verdadeiro trabalho missionário deve ser feito em contextos não-alcançados, citando-se inclusive vários versículos para confirmar-se essa teoria missionária. Em consequência, pregar a pessoas, ambientes, povos ou países onde Cristo já fora anunciado em algum momento da história tem sido uma proposta desprestigiada no meio evangélico e missionário, que não merece o devido apoio, que não recebe o devido respeito, que não deve ter o mesmo espaço em nossos discursos, cultos e orçamentos visto que, basicamente, isso não se considera como uma verdade bíblica ou, ao menos, já que não se considera como um método justificável, também não poderia ser considerado algo bíblico.

Nos esquecemos rapidamente que a palavra “nações” de Mt 28.19 vem precedida pela palavra “todas”, o que inclui necessariamente todos os contextos humanos de vida, os não-alcançados, os já-alcançados, os bairros ricos das nossas capitais, os desigrejados e qualquer outra terminologia que entre em moda. “Todas as nações” aponta para o “escopo da universalidade”[1] da missão de Cristo e da igreja. A expressão está vinculada e derivada de “toda a autoridade” (28.18) recebida por Cristo como resultado direto e inevitável da sua ressurreição (28.1-10): devido à realeza universal, absoluta e presente de Cristo, devemos discipular pessoas em todos os contextos humanos e sociais, em todas as regiões do mundo, em todas as épocas da história até que Cristo volte. “O senhorio universal de Jesus demanda agora uma missão universal”[2].

“Todas as nações” também responde ao conflito de entendimento que havia nos primeiros anos da igreja acerca de “gentios” e “judeus”. Inicialmente a igreja cria que a evangelização deveria ser restrita somente aos judeus (Mt 10.5-6), mas essa restrição passou a dar lugar a uma missão que se preocupa com a formação de discípulos de Cristo de todas as nações do mundo. Sabemos que “nações” (ethnê) é um termo que se usa, no contexto de Mateus, para referir-se aos gentios e que poderia significar a exclusão de uma missão aos judeus, restringindo a missão a um determinado grupo humano (os gentios). Entretanto, esse termo significa simplesmente que a missão que começou entre judeus deve estender-se necessariamente também aos gentios.

Além disso, “todas as nações” é uma expressão também mencionada em 24.9,14; 25.32 incluindo Israel nesse contexto humano geral e universal. Expressões paralelas também são usadas por Mateus, como “o evangelho será pregado na totalidade do mundo habitado” (24.14 – oikoumene), “vocês são a luz do mundo/humanidade” (5.14 – kosmou, 13.38), “em qualquer lugar do mundo/humanidade inteira (26.13 – en holô to kosmô)[3]. Mateus não ensina que Cristo fora enviado somente a Israel ou somente aos gentios; antes, a sua intenção é apresentar-nos Cristo como o único salvador de toda a humanidade (sem distinguir a humanidade por classes, raças, grupos, etnias, economia ou experiência religiosa prévia). De fato, Mateus se alinha a Dn 7.14 levando-nos como igreja a sempre reconhecer, conceitual, teológica e estrategicamente, que no Reino de Deus “a membresia não está baseada na raça/etnia, mas no relacionamento com Deus através do seu Messias (3.9; 8.11; 12.21; 21.28-32, 41-43; 22.8-10; 24.31; 26.13)”[4].

Ao comparar Gn 11.1-9 com Gn 12.1-3 compreendemos, também, que o anúncio do evangelho não pode ser restringido a determinados grupos humanos. Entre outros vínculos, destacamos 

a repetição de “toda a terra” e “todo o mundo” (mesma expressão no original) no capítulo 11. Ocorre uma vez no início (11.1), duas vezes durante a narrativa (11.4, 8) e duas vezes no final (11.9). Trata-se de uma frase que indica a “divina reversão das intenções humanas”[5] de tornar seu “nome” pecaminosamente famoso e auto-suficiente em relação a Deus. “Toda a terra” decidiu conscientemente fazer tijolos, construir a cidade com sua torre e firmar sua independência de Deus. Por sua vez, Deus respondeu com a dispersão de “todo mundo” por “toda a terra” e com o fim de suas intenções.

No capítulo 12, o chamado de Abraão de deixar sua “terra” e ir para uma nova “terra”, sob a direção de Deus, tem como objetivo que “seu nome seja famoso” devido à bênção de Deus (em contraste com o “nome famoso” devido ao afastamento de Deus – 11.4) e que “todos os povos da terra” sejam abençoados (não “confundidos” – 11.7,9). Assim, estabelecemos um quadro a partir do qual podemos definir claramente nossos conceitos e práticas missionárias: a bênção do evangelho deve ser anunciada a “todo o mundo”, pois foi “todo o mundo” que pecou e se distanciou culposamente de Deus.

Sendo assim, ao usar um conceito sociológico ou antropológico moderno para dar “sentido” ao texto bíblico, acabamos por alterar esse sentido que o texto bíblico tem por si mesmo.  Portanto, não nos cabe modificar a ação missionária da igreja, derivada da missão do Cristo ressurreto, ao restringi-la a um determinado grupo humano. A preocupação das Escrituras é que o evangelho seja vivido e compartilhado com todos os seres humanos, ou seja, Cristo deve ser anunciado e vivido por toda a igreja, entre todos os seres humanos supostamente “alcançados” ou supostamente “não-alcançados”. O único campo missionário da igreja, portanto, é a humanidade toda em todas as suas dimensões de vida!

 

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1. (MORRIS, The Gospel According to Matthew, p.746)

2. FRANCE, Matthew, p.413

3. BOSCH, Misión en Transformación, pp.90-91

4. FRANCE, Matthew, p.414

5. LEDER, Reading Exodus to Learn and Learning to Read Exodus, CTJ 34, p.13

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