Nosso auto-entendimento da missão


por Carlos del Pino

 

Resultados missionários

Após vários anos envolvidos com o trabalho missionário da igreja, e alguns anos trabalhando com minha esposa especificamente na coordenação de um projeto de apoio pastoral aos nossos missionários na Europa, além da supervisão de projetos, busca de oportunidades de abertura de novos campos e estabelecimento de uma igreja em Madrid (Espanha), nos vemos ainda constantemente surpreendidos pelas novas roupagens que assume a velha questão dos resultados na obra missionária.

Resultados… Essa palavra tão comum em nosso dia a dia é usada intensamente nas esferas profissional, estudantil e esportiva com o sentido de “rendimentos” que se pode obter de um esforço ou investimento. Na vida cristã essa palavra também tem sido usada com esse sentido: “o que conseguimos se oramos mais”, “o que Deus nos dá se somos dizimistas”, etc.

No trabalho missionário não tem sido diferente! Quantas igrejas foram plantadas? Em quanto tempo? Quantos membros? Quanto arrecada? Por que investir em lugares que dão menos resultados numéricos? Porque investir em lugares onde não há perseguição e agressões contra os missionários? Vale à pena “pagar” missionários para viverem em lugares bonitos? Vale a pena “pagar” missionários que levarão 15 ou 20 anos para plantar uma pequena igreja? Não é mais produtivo investir em lugares que dão grandes resultados numéricos em pouco tempo?

Assim sendo, ao longo de alguns artigos, proporemos algumas reflexões acerca de temas e situações que envolvem nossas expectativas com os “resultados missionários”. Devemos ter em mente que os resultados alcançados, em qualquer área da vida, são “causas”, “consequências” e “efeitos” dos conceitos fundamentais que definem nossos princípios, formatam nossos valores e nos movem a agir de uma ou de outra maneira. Portanto, ao falar sobre “resultados missionários” devemos começar com o nosso auto-entendimento acerca da missão. O que, de fato, cremos ser a missão? Com que fundamentos damos os contornos para a missão? Com base em que definimos o significado de “campo missionário”? E, obviamente, a partir de que princípios e valores buscamos os resultados do trabalho missionário?

Devemos rever urgentemente o conceito de “resultados missionários” que tem sido amplamente utilizado em nossas igrejas e por muitos líderes. Uma revisão que nos leve arrependidamente de volta ao entendimento bíblico acerca da missão e que, como consequência, transforme conceitos pessoais e eclesiásticos, motivações, atitudes, investimentos, estratégias e a expectativa pelos resultados. Para tanto, e para início de conversa neste artigo, propomos alguns elementos básicos e iniciais que devem compor, transformadoramente, nosso auto-entendimento missionário:

1. A ação missionária de Deus no mundo

Entendemos que a base fundamental que solidifica nosso auto-entendimento da missão é o fato de Deus (Pai, Filho e Espírito Santo) ser o Senhor da missão.

A ele pertencem, exclusivamente, os propósitos e as ações que tornaram a salvação humana uma realidade concreta. Nesse sentido, vemos a missão como sendo uma ação primária e primordial de Deus, na qual Deus toma a iniciativa de chegar até o ser humano em seu estado irremediável de pecado e resgatá-lo por sua ação graciosa.

Nesse sentido, o prólogo do evangelho de João (1.1-19) nos apresenta o claro movimento de Deus, através de Jesus Cristo, de mover-se de si mesmo (de sua divindade e pré-existência eternas) em direção ao mundo, chegando até nós de forma concreta e redentora (encarnando-se e habitando entre nós), formatando assim sua missão neste mundo e em favor dele.

Se em nosso auto-entendimento da missão partimos de nós mesmos, ou da igreja, como os detentores ou os protagonistas principais da missão, inevitavelmente o trabalho missionário se fundamentará em pilares humanos e consequentemente as expectativas por resultados seguirá também essa linha. Mas se em nosso auto-entendimento da missão partimos da realidade missionária trinitária, então o trabalho missionário se fundamentará na busca pelos propósitos eternos de Deus para os seres humanos e para a igreja. Consequentemente, nossa expectativa por resultados será bem diferente do caso anterior. Esperaremos pelos resultados da ação graciosa de Deus na vida dos seres humanos, no devido tempo, sem pressa e sem a ansiedade causada pela pressão dos resultados numéricos em curto prazo.

2. O pecado humano e a necessidade de salvação

Nosso auto-entendimento da missão também deve se fundamentar em uma visão bíblica acerca da situação em que o ser humano se encontra diante de Deus: sua vida totalmente corrompida por seu culposo afastamento de Deus (pecado) e sua incapacidade de alterar esse estado de vida. Não há no ser humano nada que o justifique, nem ao menos parcialmente, diante de Deus. Se crermos que as pessoas podem aportar algo para sua salvação, por muito pouco que seja, já alteramos significativamente nossa compreensão da obra de Deus no mundo e a forma como o trabalho missionário se processará.

O texto de Ef 2.1-4 nos ajuda muito a compreender que somente a intervenção graciosa de Deus pode livrar definitivamente o ser humano de seu estado de “morte em pecado”. Entendemos que ninguém pode decidir crer em Cristo por si só e muito menos tomar a iniciativa de voltar-se para Deus sem que, antes, a ação de Deus seja completa em sua vida (eleição, regeneração, chamado, conversão, etc). Sendo assim, a forma como vamos atuar missionariamente no mundo e os resultados esperados dessa ação devem corresponder a essa visão básica de fé, antes de corresponder-se à mentalidade especulativa e empresarial imposta as nossas igrejas no que concerne à missão.

3. A natureza missionária da igreja

Avançando sobre esses elementos, chegamos à natureza da igreja como o povo escolhido e resgatado por Deus. Nesse sentido, cremos que a igreja foi chamada do mundo por Deus, nosso Senhor e Criador, segundo sua vontade e propósito eternos, e enviada novamente ao mundo agora como serva e testemunha fiel de Cristo, para a extensão do Seu reino, para a edificação do Corpo de Cristo e para a glorificação do seu nome.

Isso lhe concede uma razão de ser muito especial: a igreja é seguidora de Cristo e de sua missão redentora; consequentemente, sua ação missionária sempre é derivada e dependente da missão de Cristo. Com esse auto-entendimento da missão, a fala da igreja deve condizer com a palavra de Cristo, as ações de misericórdia da igreja devem manifestar o pleno amor redentor de Cristo por todos os seres humanos e, obviamente, as prioridades missionárias da igreja devem ser as prioridades estabelecidas por Cristo em sua obra. Sendo assim, os resultados esperados na obra missionária devem ser um reflexo dessa natureza vocacional que a igreja recebe de Jesus Cristo e uma resposta a si mesma e a Deus da ação de Cristo em sua vida.

Como conclusão deste primeiro artigo, perguntamos: quais são os resultados que esperamos da obra missionária? Sabendo que sempre esperamos resultados condizentes com nossas verdadeiras crenças e motivações, precisamos começar por um profundo arrependimento por medir os resultados missionários com os equipamentos empresariais que herdamos. Em seguida, refazer a pergunta: que resultados missionários esperamos à luz da “ação missionária de Deus no mundo”, “do pecado humano e sua necessidade de salvação” e da “natureza missionária da igreja” como elementos básicos e fundamentais do nosso auto-entendimento da missão?

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